O agronegócio é um dos setores mais tradicionais da economia mundial. Porém, com o apoio das agtechs, este setor tem incorporado cada dia mais soluções tecnológicas que ajudam a otimizar a produção, economizar recursos e promover a sustentabilidade. Quer entender como investir no agronegócio com estratégias de negócio?Neste artigo, você vai conhecer um pouco mais sobre o agronegócio na América Latina, seus desafios, a atuação das agtechs e como os maiores fundos de investimento no agronegócio selecionam as empresas que serão apoiadas. Boa leitura!
Você já deve ter ouvido que o agronegócio move a economia latino-americana.Tal pensamento tem fundamento, já que o agronegócio representa mais de 10% do PIB da maioria dos países da região.Além disso, atualmente, o setor é a maior atividade econômica da América Latina.No momento em que olhamos especificamente para o Brasil, podemos notar que os dados são ainda mais surpreendentes: o agro compõe quase 25% do PIB nacional e detém 27% de toda a força de trabalho brasileira.Ao todo, a América Latina exporta cerca de 20% de sua produção agrícola, o que alimenta cerca de 1 bilhão de pessoas ao redor do mundo.Pouco surpreendente, a grande maioria (63%) dos produtos originam-se no Brasil, cuja produção ocupa 48% dos territórios cultivados da região.Em seguida, temos Argentina, com 10% da produção, e México, com 8% da produção.De fato, alcançar esse tamanho e importância de mercado só foi possível com investimento e avanços em tecnologia.De acordo com a Empraba (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), os investimentos em tecnologia no agronegócio foram responsáveis por 59% do crescimento do valor bruto da produção agrícola entre a década de 1970 e 2022.Isso significa dizer que a adoção de maquinários, tecnologias de pesquisas e produtos transgênicos, por exemplo, revolucionaram o agronegócio e o transformaram no que conhecemos hoje.Apesar disso, o setor ainda enfrenta muitos desafios.
Para começar, o campo ainda não possui uma ampla cobertura de internet.Muito pelo contrário: 73% das propriedades rurais brasileiras estão desconectadas da internet, segundo o Ministério da Agricultura.Além disso, na América Latina como um todo, apenas 36,8% da população rural tem acesso à internet de qualidade.Com essa falta de conectividade, fica mais difícil levar tecnologias emergentes para o campo, diminuindo o acesso aos benefícios proporcionados pela tecnologia.Outro grande desafio reside no aumento populacional.De acordo com a ONU, até 2050 a população deve alcançar a marca de 9,7 bilhões de pessoas.Para atender as demandas geradas por tamanho contingente populacional, a América Latina terá que aumentar sua produção agrícola em 80%, de acordo com o Inter-American Development Bank (IADB).Além disso, espera-se que a região, junto com a África Subsaariana, sofra a maior expansão de terras cultiváveis até 2050.Assim, um crescimento tão alto e acelerado utilizando os modelos de produção atuais é insustentável.Isso porque os recursos naturais são finitos, escassos e estão constantemente ameaçados.Portanto, é essencial que os produtores adotem técnicas de manejo sustentáveis, de forma a aumentar a produção sem prejudicar o meio ambiente.Para solucionar esses desafios, ao mesmo tempo que fazemos um melhor uso e preservação das terras, podemos contar com as agtechs, startups voltadas para soluções tecnológicas no agronegócio que vêm recebendo cada vez mais investimentos.Em seguida, vamos explorar um pouco sobre o papel das agtechs.
Parceiras importantes para o agronegócio, as agtechs começaram a se popularizar na região nos últimos anos.Atualmente são 769 agtechs que atuam na América Latina como um todo.Ainda assim, os investimentos no agronegócio a partir dessas empresas caminhava em ritmo lento até meados de 2017.Isso porque ainda havia muitas incertezas quanto à integração de novas tecnologias no campo.Tais preocupações eram movidas pela falta de conectividade nessas regiões e no receio de adoção de novas tecnologias por parte dos produtores.Porém, com o nível de incerteza diminuindo, de 2017 para cá, as agtechs já receberam quase US$ 650 milhões em investimentos, estando 80% desse investimento no agronegócio concentrado no Brasil.Curiosamente, 2022 foi o ano que as agtechs mais captaram recursos (US$ 273,3 milhões), apesar do inverno das startups.Outro fato interessante de se observar é que a maioria dos deals encontram-se em estágios seed e pré-seed, o que demonstra que a maior parte das soluções de tecnologia do mercado agro ainda estão em fase inicial de desenvolvimento.Porém, alguns investidores do agronegócio enxergam, nessa lacuna de maturidade, oportunidades únicas de investimento.Conversamos com a SP Ventures e com a Indicator Capital para entender como essas gigantes do mercado de venture capital identificam essas oportunidades de investimento no agronegócio.
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A SP Ventures é uma gestora de venture capital com foco em startups early-stage de agronegócio e foodtech na América Latina.Fundada em 2007, com foco em agtechs desde 2010, a empresa tem sede em São Paulo e já investiu em mais de 40 empresas, com quase R$ 500 milhões sob administração.Em conversa com o Distrito, Francisco Jardim, sócio fundador, e Juliana de Podestá, Head de ESG, compartilharam sua expansão na América Latina e o processo de investimento. Confira:
A estratégia por trás da expansão da SP Ventures para investir em startups de outros mercados da América Latina, além de investir em startups brasileiras, está relacionada à crescente oportunidade que as AgFoodtechs têm demonstrado na região. Essa classe de ativos tem se destacado por seu rápido crescimento, dinamismo e resiliência geográfica.
A conexão intrínseca entre a economia agrícola e de alimentos na América Latina torna as AgFoodtechs especialmente adaptáveis para expandir seus negócios além das fronteiras nacionais.
Isso ocorre devido às extensas operações geográficas de distribuidores, revendedores, grupos de negociação e indústrias de insumos espalhadas por toda a região da America Latina. Essa infraestrutura torna mais fácil para empresas com soluções bem-sucedidas, como produtos e modelos de negócios, estenderem seu alcance para outros países.Nesse contexto, a SP Ventures está em uma posição única para ser a primeira e melhor escolha de investimento para empreendedores de outros países da América Latina que buscam capital financeiro e intelectual estratégico para entrar no mercado brasileiro. A SP Ventures possui um profundo conhecimento local da indústria, compreende os principais players do mercado brasileiro e tem a capacidade de conectar e apoiar as empresas do seu portfólio na rápida expansão dentro do Brasil.Além disso, eles têm acesso a uma vasta rede de profissionais dispostos a ajudar a transformar o segmento, colaborando com as empresas do portfólio.
A abordagem que a SP Ventures utiliza para analisar potenciais investimentos em startups Agtech em estágio inicial contempla vários pontos de análise:1. Equipe de Gestão: Avaliamos a experiência, capacidade da equipe fundadora e o tempo que trabalharam juntos.2. Tamanho do Mercado: Analisamos a dimensão do mercado e as oportunidades de crescimento.3. Produto ou Serviço: Realizamos uma análise detalhada do produto ou serviço, incluindo sua singularidade, proposta de valor e como se diferencia da concorrência.4. Modelo de Negócios: Buscamos compreender como a empresa gera receita e se o modelo de negócios é viável.5. Tração/Clientes: Procuramos evidências de que a startup está ganhando tração no mercado, observando números de clientes, receita e outras métricas-chave de crescimento, bem como a satisfação dos clientes, recorrência e outras métricas relevantes.6. Concorrência: Realizamos uma análise da concorrência direta e indireta, destacando como a startup se posiciona no mercado e seus diferenciais competitivos.7. Financeiro: Avaliamos os principais indicadores financeiros em relação ao modelo de negócios.8. Conformidade e Aspectos Jurídicos: Realizamos uma revisão dos aspectos legais e de conformidade da empresa, incluindo questões de propriedade intelectual e regulamentação.É importante destacar que, além desses pontos, a SP Ventures leva em consideração outros aspectos importantes, dependendo da tese de investimento, o que pode levar a aprofundamentos específicos em cada área.
Além disso, buscamos alcançar retornos financeiros, sempre com responsabilidade e criação de valor para a sociedade. Para garantir isso, realizamos um abrangente processo de diligência ESG (Ambiental, Social e Governança), avaliando mais de 100 questões relacionadas a essa temática.
Em relação aos desafios específicos enfrentados pela SP Ventures na hora de encontrar boas startups para investir:1. Escassez de startups maduras: Em comparação com outras regiões, a América Latina pode ter um número limitado de startups maduras e consolidadas no setor de agfoodtech, o que pode limitar as oportunidades de investimento para fundos de venture capital.2. Dificuldades na validação de mercado: Validar oportunidades de mercado no setor de agfoodtech pode ser complexo devido à diversidade de culturas, práticas agrícolas e condições climáticas na América Latina. Os fundos precisam avaliar cuidadosamente a viabilidade das startups em diferentes contextos.3. Educação e capacitação: Muitos empreendedores na América Latina podem não ter acesso à educação e capacitação necessárias para desenvolver startups de tecnologia agrícola, o que pode afetar a qualidade das startups disponíveis para investimento.4. Questões ambientais e regulatórias: As regulamentações ambientais e de segurança alimentar podem ser rigorosas e variar de país para país na América Latina, e os fundos de venture capital precisam estar cientes dessas questões ao avaliar startups.
A Indicator Capital é uma gestora de venture capital especializada em IoT (Internet das Coisas) e deep tech.Com foco em startups de tecnologia na América Latina, a empresa foi fundada em 2014.Atualmente, a Indicator já investiu em mais de 20 empresas, com mais de US$ 370 milhões sob gestão.Fabio Iunis de Paula, cofundador da gestora, nos contou um pouco sobre a relação da empresa com as tecnologias emergentes e o que está por trás da avaliação das startups. Confira:
A tese da Indicator Capital - primeira imagem - está muito bem alinhada com as inovações e tendências que permeiam atualmente o setor de agtech.Já o segundo quadro, por sua vez, mostra o overlap da nossa atuação com o mercado agro.Em algumas áreas, olhamos o panorama de forma proativa para tecnologias e soluções disruptivas que tenham congruência com nossas teses principais de Internet das Coisas (IoT), Conectividade, deep tech e Transformação Digital.[caption id="attachment_53070" align="aligncenter" width="776"] [Imagem 1 - Tese Indicator - Fonte: Indicator Capital][/caption][caption id="attachment_53071" align="aligncenter" width="773"] [Imagem 2 - Tese de Agro da Indicator - Fonte: Indicator Capital][/caption]
A tese da Indicator nasce extremamente alinhada com o Plano Nacional de Internet das Coisas, pela qual entendemos que as pessoas estão cada vez mais inseridas em cidades inteligentes, com sistemas de saúde tecnológicos, com agropecuárias mais eficientes e uma indústria 4.0 consolidando todos os produtos desenvolvidos.
Tudo isso será revertido para a população com preocupações e certificações de sustentabilidade e responsabilidade social, uma vez que os dados serão interpretados via tecnologias que otimizam a eficiência produtiva e energética.Por fim, os dados são devolvidos aos cidadãos com uma camada de segurança.
Como mencionado anteriormente, o setor de agtech é um dos principais pilares da tese da Indicator, sendo ele constantemente estudado, aprofundado e atualizado para encontrarmos boas oportunidades no setor que visem a eficiência energética e produtiva.Sendo assim, segmentamos nossa procura por startups de modo proativo ou de oportunidade, por empresas que resolvam as dores antes da fazenda, dentro da fazenda e depois da fazenda.Os critérios de avaliação são similares aos critérios de seleção de venture capital. E vão desde a capacidade do time, capacidade de execução, até o potencial da solução no mercado e na resolução de desafios latentes do mercado.
Entre os principais aspectos relacionados ao time estão o comprometimento com a construção de longo prazo de um grande negócio. Buscamos, dentro das startups que investimos, empreendedores extraordinários com vontade e capacidade de transformar setores importantes da economia nacional. Comentamos que a Indicator Capital está atrás dos ‘heróis nacionais’ de deep tech, capazes de transcender as fronteiras do país.
Em relação à tecnologia, investimos em soluções potenciais que tragam propostas diferenciadas de valor, para mercados relativamente grandes, com alta demanda e modelos de negócio escaláveis e rentáveis. Outros critérios que avaliamos são o portfólio de clientes e churn, entre outros. Em resumo, buscamos negociações favoráveis com potencial de retorno diferenciado ao capital investido. Geralmente, vislumbramos uma saída do capital em um período de cinco a dez anos.Até o momento já foram mapeadas mais de 864 startups de Internet das Coisas, sendo 641 no Brasil e 223 com governança internacional. Isto representa mais de R$ 7,1 bilhões em oportunidades de investimento.