Voltar

Inteligência artificial e jornalismo: lições do acordo entre OpenAI, UOL e Folha para sua empresa

Maio 2026
Distrito
8 min
Inteligência artificial e jornalismo: lições do acordo entre OpenAI, UOL e Folha para sua empresa
Sumário

1. O acordo que virou notícia no Brasil

2. Por que as big techs precisam tanto do jornalismo?

3. O mapa global dos acordos de licenciamento

4. Da ação judicial ao contrato: como a Folha mudou de estratégia

5. O que isso significa para empresas que usam IA generativa

6. O jornalismo como dado estratégico: uma lição de governança

7. FAQ

8. Conclusão

A relação entre inteligência artificial e jornalismo atingiu um novo marco no Brasil em 25 de maio de 2026, com a parceria da OpenAI com Folha de São Paulo e UOL. O acordo prevê o compartilhamento de notícias em tempo real para alimentar o ChatGPT, com resumos atribuídos e links para as fontes originais. Os valores não foram divulgados, mas o significado é claro: o debate global sobre quem tem direito sobre os dados que alimentam a IA chegou ao Brasil.

Para quem acompanha o setor de tecnologia, a notícia é animadora, mas não surpreende. Desde 2023, grandes empresas de IA travam uma disputa pelo ativo mais valioso da era generativa: conteúdo de qualidade, verificado e com credibilidade. O que surpreende é a velocidade com que esse movimento chegou ao país, e o que ele revela sobre as regras que estão sendo escritas agora para o uso de dados na IA corporativa.

Além de caracterizar um acontecimento jornalístico importante, o acordo traz alguns ensinamentos para empresas que estão construindo ou adotando sistemas de inteligência artificial generativa hoje, e iremos explorá-los mais a fundo ao longo deste artigo.

O acordo que virou notícia no Brasil

A OpenAI anunciou a parceria com o Grupo Folha e o Grupo UOL para integrar conteúdos jornalísticos ao ChatGPT em sua primeira parceria de mídia no Brasil, mercado que, segundo a empresa, está entre os maiores da plataforma no mundo, com mais de 50 milhões de usuários ativos mensais e cerca de 140 milhões de mensagens trocadas diariamente.

Na prática, o acordo permitirá o compartilhamento de notícias em tempo real para alimentar o ChatGPT, ampliando a oferta de respostas atualizadas e baseadas em informações apuradas pelas redações dos dois veículos. Os usuários verão resumos das reportagens, sempre com atribuição e link para a fonte original.

Além da distribuição de conteúdo, o acordo prevê que o Grupo Folha e o Grupo UOL tenham acesso a ferramentas da OpenAI, como o Codex, o ChatGPT Enterprise e APIs da empresa, que poderão ser utilizadas para apoiar atividades jornalísticas, o desenvolvimento de novos produtos e a otimização de fluxos de trabalho internos.

Na prática, o acordo é uma parceria de duas vias: os veículos cedem dados de qualidade e ganham ferramentas de ponta para competir no novo cenário de distribuição de informação em troca.

Por que as big techs precisam tanto do jornalismo?

Para entender a corrida pelo conteúdo jornalístico, é necessário também entender o problema que ela resolve. De mogodo geral, modelos de linguagem de grande escala (LLMs), como o GPT-4 e seus sucessores, são treinados em enormes volumes de texto, mas a quantidade nem sempre — ou quase nunca — é sinônimo de qualidade ou confiabilidade.

O jornalismo profissional resolve três problemas simultaneamente: verificação factual, atualidade e credibilidade de fonte. Um modelo alimentado apenas por conteúdo rastreado aleatoriamente da web tende a produzir respostas com mais erros. Porém, quando o mesmo modelo é treinado com material de redações que seguem padrões editoriais, o resultado melhora de forma mensurável.

Nesse sentido, as parcerias com editoras e jornais são um movimento estratégico da OpenAI para reduzir as alucinações do ChatGPT — respostas erradas ou inventadas pelo chatbot — e aumentar a confiabilidade das respostas oferecidas pela ferramenta.

Há também um componente jurídico relevante, uma vez que a OpenAI vem buscando acordos de licenciamento com empresas de mídia após o jornal americano The New York Times entrar com uma ação contra a empresa, alegando uso não autorizado de seus conteúdos para treinar modelos de IA. Fechar contratos é uma forma de ter acesso legal a conteúdos protegidos por direitos autorais e evitar novos processos, assegurando qualidade e conformidade jurídica em um único movimento.

O mapa global dos acordos de licenciamento

O que aconteceu no Brasil em maio de 2026 é parte de um movimento global que começou três anos antes. Desde 2023, a OpenAI assinou acordos com o Financial Times, com Axel Springer (proprietário do Business Insider), o francês Le Monde, a espanhola Prisa Media e a revista Time.

Os valores envolvidos mostram a dimensão financeira do setor. A News Corp., dona do The Wall Street Journal, fechou um acordo com a OpenAI avaliado em cerca de US$ 250 milhões ao longo de cinco anos, incluindo pagamento em dinheiro e créditos para uso de serviços da OpenAI. No mesmo período, a Meta Platforms firmou acordo de licenciamento com a News Corp que pode render até US$ 50 milhões ao conglomerado, cobrindo publicações como o The Wall Street Journal, o New York Post, o MarketWatch e o The Times, de Londres.

O padrão se repete em diferentes geografias. O projeto Spur, sigla para padrões para direitos de uso de publicações, foi assinado pelos CEOs da BBC, Financial Times, The Guardian, Sky News e Telegraph, com o objetivo de criar padrões técnicos e modelos de licenciamento que permitam o uso responsável de conteúdo jornalístico por ferramentas de IA.

Fica evidente, portanto, que o setor não está esperando regulamentação pública. Está criando suas próprias regras.

Da ação judicial ao contrato: como a Folha mudou de estratégia

A trajetória da Folha de S.Paulo nessa relação em particular é um caso de estudo em adaptação estratégica, visto que a parceria com a OpenAI encerra uma ação judicial movida pelo veículo em 2025 contra a startup norte-americana. O processo pedia o fim da coleta e do uso de conteúdos do site sem autorização prévia e sem compensação financeira.

Em vez de insistir na via judicial como único caminho, o jornal adotou uma postura que o diretor de redação Sérgio Dávila resume com precisão: não há como ignorar a IA generativa, e na prática essas big techs já estavam usando os conteúdos sem autorização e sem remuneração, o que não é tolerável.

Mais do que capitulação, a mudança de rota demonstra reconhecimento de que a disputa por direitos autorais na era da IA generativa não se resolve apenas em tribunal. O jornal seleciona os conteúdos que podem ser usados para aprendizado da IA, garantindo que apenas o conteúdo proprietário da Folha é licenciado. O controle editorial permanece com a redação, mas agora a monetização também entra na equação.

O que isso significa para empresas que usam IA generativa

Aqui está a pergunta que interessa a qualquer gestor ou líder de tecnologia brasileiro: o que esses acordos têm a ver com a sua empresa?

A resposta é direta: tudo. O debate sobre licenciamento de conteúdo que hoje acontece entre veículos de mídia e big techs é o mesmo debate que chegará, em menor escala, às empresas que constroem sistemas de IA com dados internos e externos. A lógica é a mesma: quem produziu o dado tem direito sobre ele, e usar dados sem autorização cria passivo jurídico e reputacional.

Empresas que treinam modelos proprietários, constroem bases de conhecimento para agentes de IA ou alimentam RAGs — sistemas de geração aumentada por recuperação — com documentos de terceiros precisam responder a perguntas que muitas ainda ignoram: de onde vêm os dados que alimentam os modelos? Há autorização para esse uso? Existe um processo de curadoria e governança para garantir que o conteúdo utilizado é confiável e licenciado?

O acordo entre OpenAI, Folha e UOL é um sinal de que o mercado está amadurecendo. O que antes era um campo cinza de permissões implícitas está se tornando um conjunto de contratos explícitos e de preocupação legítima com a fonte dos dados utilizados para treinar modelos e responder perguntas. Empresas que tomarem a dianteira nessa governança terão vantagem competitiva, enquanto as que esperarem provavelmente enfrentarão os mesmos processos que antecederam os acordos.

O jornalismo como dado estratégico: uma lição de governança

Por fim, há um paralelo importante entre o modelo de licenciamento adotado pelos veículos de mídia e o que empresas sérias fazem com seus dados internos. Em ambos os casos, o valor não está apenas no dado bruto, mas na cadeia de verificação e custódia que o acompanha.

Em outras palavras, o conteúdo jornalístico é útil porque passou por um processo de verificação. Para sistemas de IA corporativa, o equivalente é ter dados internos estruturados, revisados e com proveniência clara. Uma IA alimentada por documentos não curados, versões desatualizadas de processos ou informações contraditórias vai produzir respostas tão problemáticas quanto um modelo treinado em conteúdo de baixa qualidade.

A inteligência artificial e o jornalismo têm, nesse sentido, um problema comum: lixo entra, lixo sai (expressão popularmente conhecida como "garbage in, garbage out"). A diferença é que o jornalismo profissional já tem décadas de processos para lidar com isso. A IA corporativa está aprendendo agora.

FAQ: Inteligência artificial e jornalismo

O que são os acordos de licenciamento entre big techs e veículos de mídia?
São contratos comerciais pelos quais empresas de mídia autorizam o uso de seu conteúdo jornalístico para treinar modelos de IA e alimentar respostas de chatbots como o ChatGPT. Em troca, recebem remuneração financeira e, em alguns casos, acesso a ferramentas corporativas de IA.

Por que a OpenAI fechou acordo com a Folha e o UOL?
Porque o Brasil é um dos maiores mercados do ChatGPT no mundo, com mais de 50 milhões de usuários ativos mensais. O acordo garante à OpenAI acesso a conteúdo jornalístico verificado em português e encerra uma ação judicial movida pela Folha em 2025 por uso não autorizado de seu conteúdo.

O que muda para empresas brasileiras que usam IA generativa?
O acordo sinaliza que o uso de dados sem autorização em sistemas de IA cria riscos jurídicos e reputacionais crescentes. Empresas que anteciparem uma política de governança de dados para seus projetos de IA estarão mais protegidas e competitivas.

Quais outros veículos já fecharam acordos com empresas de IA?
No cenário global: Financial Times, The Wall Street Journal, Le Monde, Axel Springer, Condé Nast, Time e Associated Press com a OpenAI; Reuters e CNN com a Meta. No Brasil, a Folha havia firmado parceria com o Google em 2025 para alimentar o Gemini antes deste acordo com a OpenAI.

Conclusão

O acordo entre OpenAI, Folha de São Paulo e UOL marca um ponto de inflexão para a relação entre inteligência artificial e jornalismo no Brasil. Mais do que um contrato entre empresas de mídia e uma startup americana, ele sinaliza que os dados de qualidade têm dono, têm preço e têm regras. As big techs aprenderam isso por pressão judicial. As empresas que adotam IA generativa no Brasil têm a chance de aprender sem precisar chegar a esse ponto.

Construir uma estratégia de IA sólida começa por entender quais dados alimentam os seus modelos, quem tem direito sobre eles e como garantir que as respostas geradas são confiáveis. Conheça o AI Strategy do Distrito e descubra como estruturar a governança de dados e a adoção de IA de forma segura e escalável para a sua empresa.