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InovaHC: como o núcleo do HCFMUSP estrutura inovação aberta

Agosto 2023
Distrito
8 min de leitura
InovaHC: como o núcleo do HCFMUSP estrutura inovação aberta
Sumário

1. O que é o InovaHC?

2. Como funciona o modelo de inovação aberta do InovaHC

3. O desafio real: orientar pacientes dentro de um complexo hospitalar gigante

4. Como o Distrito estruturou o desafio junto ao InovaHC

5. As startups finalistas e o que diferencia cada solução

6. O que o caso InovaHC ensina sobre inovação aberta em saúde

Todos os dias, cerca de 20 mil pessoas circulam pelos 600 mil m² do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), um dos maiores complexos hospitalares do mundo. Entre corredores, alas e prédios distintos erguidos desde 1944, encontrar o caminho certo até uma consulta ou exame virou um problema estrutural, não um detalhe de conforto. Foi esse problema concreto que levou o InovaHC, núcleo de inovação tecnológica do HCFMUSP, a buscar fora dos muros do hospital uma solução que as equipes internas de TI não conseguiam resolver sozinhas.

A resposta veio por meio de um desafio aberto para startups, estruturado em parceria com o Distrito. O resultado, conduzido dentro do programa de inovação aberta do InovaHC, evidencia algo que grande parte das empresas ainda erra na prática: inovação aberta funciona melhor quando parte de um problema operacional bem delimitado, não de um mandato genérico para "inovar".

A dificuldade não é exclusividade do HCFMUSP. Segundo o BCG (2024), 83% dos executivos classificam inovação como uma das três prioridades estratégicas da empresa, mas apenas 3% das organizações se consideram de fato prontas para entregar essas metas, o menor patamar da série histórica do estudo. O caso do InovaHC chama atenção justamente por escapar dessa estatística: transformou um problema de operação hospitalar, a orientação de pacientes dentro do complexo, em um processo estruturado de seleção, teste e validação de startups.

O que é o InovaHC?

Trata-se do núcleo de inovação tecnológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, criado em 2015 para conectar startups, empresas e pesquisadores a desafios reais de um dos maiores complexos hospitalares do mundo. Sua atuação se apoia em quatro pilares: promoção de uma cultura interna de empreendedorismo, mapeamento de desafios prioritários, co-desenvolvimento e validação de tecnologias com o próprio hospital, e conexão entre os diferentes atores do setor de inovação em saúde.

Entre os programas estruturados do InovaHC está o In.pulse, iniciativa voltada a soluções que já têm alguma maturidade tecnológica e que podem ser testadas rapidamente dentro do hospital. Para Jean Singh, analista de inovação do InovaHC:

"Trazer soluções tecnológicas para resolver grandes desafios da saúde é o core do In.pulse, programa de inovação do InovaHC. Através da colaboração de empresas, startups e instituições, transformamos o setor de saúde e as nascentes que precisam de apoio no desenvolvimento de soluções. Essas soluções, testadas e desenvolvidas com o HCFMUSP, podem ser aplicadas tanto no sistema público quanto no privado."

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Fonte: Distrito

Como funciona o modelo de inovação aberta do InovaHC

Esse modelo segue uma lógica de funil: qualquer unidade do HCFMUSP pode levar um problema real de operação, atendimento ou gestão até o núcleo, que avalia sua viabilidade técnica e o potencial de impacto. Feita essa triagem, o desafio é aberto ao mercado por meio de programas como o programa de desafios abertos para startups do Distrito, que reúne empresas early-stage capazes de propor soluções específicas para o problema mapeado.

Esse desenho evita um erro comum em iniciativas de inovação aberta: abrir o processo para qualquer ideia, sem um problema nomeado para orientar a seleção. No caso do InovaHC, cada etapa (mapeamento, curadoria, pitch e prova de conceito) existe para reduzir o risco de investir tempo e recursos em soluções que não resolvem, de fato, a dor original.

O desafio real: orientar pacientes dentro de um complexo hospitalar gigante

O HCFMUSP emprega mais de 22 mil profissionais e recebe, somados pacientes, acompanhantes e equipes, um volume de pessoas comparável ao de um município brasileiro de porte médio. "O HCFMUSP se equipara a municípios brasileiros, em termos de contingente do público que o frequenta. Apenas em nossas equipes, temos mais de 22 mil colaboradores. Com o volume de pacientes, esse número sobe mais, o que nos impõe questões e desafios de smart cities", explica Marco Bego, diretor do InovaHC.

Em uma estrutura desse tamanho, muitas pessoas em quadros clínicos diversos encontram dificuldade para se localizar, se orientar e acessar ambientes internos e externos do hospital. O problema ganha proporção quando reflete em atrasos e faltas, que aumentam remarcações e afetam a organização das equipes de saúde.

Não é só um problema logístico. Ao dificultar o deslocamento do paciente dentro do complexo, cria-se também uma experiência de acesso mais frustrante justamente para quem já está em um momento vulnerável. Foi essa fricção operacional, recorrente e mensurável, que motivou o núcleo a buscar apoio externo em vez de tratar o problema apenas como uma questão interna de sinalização.

Como o Distrito estruturou o desafio junto ao InovaHC

Para resolver o problema de orientação de pacientes, o InovaHC recorreu ao portfólio de soluções de inovação do Distrito. Ao todo, 23 startups se inscreveram no processo, 16 passaram por curadoria técnica, 4 apresentaram pitch para o time do núcleo e 2 avançaram para a fase de desenho de prova de conceito (POC).

Esse funil de seleção não é um detalhe burocrático. Segundo o Boston Consulting Group (BCG, 2024), abordagens estruturadas de corporate venturing, com etapas claras de triagem, teste e validação, chegam a uma taxa de sucesso de 66%, patamar bem acima do que se observa em iniciativas de inovação aberta conduzidas sem processo definido.

Para José Antônio Costa, Program Manager da Cisco envolvido no processo de seleção:

"A caracterização do problema é fundamental para identificar startups com soluções prontas ou customizáveis que tenham potencial para resolvê-lo. Mas isso só é possível com o envolvimento de quem, diariamente, vivencia as dificuldades do percurso de pacientes no complexo do HC, que são os colaboradores."

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Fonte: Distrito

As startups finalistas e o que diferencia cada solução

Selecionar apenas duas startups entre tantas soluções não foi tarefa simples. Com apoio do time do Distrito, o núcleo chegou a duas finalistas, ambas apoiadas em tecnologias emergentes de IoT para geolocalização indoor, mas com propostas de valor distintas.

Zapt Tech

A Zapt Tech é a primeira startup brasileira especializada em geolocalização indoor. A tecnologia usa sensores de IoT e sistemas de localização em tempo real para detectar o local exato de uma pessoa dentro de ambientes cobertos, o que permite traçar rotas dentro do complexo e identificar quais pontos concentram mais fluxo, e por isso exigem mais alocação de recursos físicos e humanos.

Ciclix

A Ciclix atua com rastreabilidade em tempo real voltada à área da saúde. Por meio de um sistema chamado Iris, a startup identifica onde pacientes e equipamentos se encontram, mapeando e otimizando processos diários de atendimento. O que diferencia a Ciclix da Zapt Tech é o foco: enquanto a Zapt Tech prioriza a experiência de navegação do paciente, a Ciclix mira a gestão operacional de equipamentos e recursos em tempo real, dois recortes complementares do mesmo problema.

Para Luciana Mattar, Head de Inovação do InovaHC:

"Pretendemos com esse projeto não somente resolver problemas do hospital, mas fomentar soluções inovadoras com alto potencial de impacto social e geração de renda. Também reforçamos a importância dos valores do HCFMUSP e do InovaHC, como referência e agente transformador do setor de saúde."

O que o caso InovaHC ensina sobre inovação aberta em saúde

Esse caso contraria uma crença comum entre lideranças hospitalares: a de que inovação depende primeiro de orçamento e só depois de parcerias externas. Aqui a ordem foi invertida. O núcleo delimitou um problema operacional específico, a orientação de pacientes, definiu critérios claros de seleção e só então buscou tecnologia externa para validá-lo.

Essa lógica converge com o que mostra a Deloitte (2024): em levantamento com executivos de grandes sistemas de saúde nos Estados Unidos, a maioria espera que a adoção acelerada de ferramentas digitais impacte diretamente a estratégia de suas organizações nos próximos anos, ainda que boa parte dos hospitais continue priorizando o fortalecimento da tecnologia já existente em vez de adotar soluções inteiramente novas.

Esse episódio mostra que inovação aberta bem-sucedida não começa com uma lista de tecnologias emergentes, mas com um problema nomeado, medido e delimitado o suficiente para que startups consigam propor, testar e validar soluções em ciclos curtos.

Para gestores hospitalares e de saúde, a implicação prática é direta: qualquer área operacional, não só a assistencial, pode virar ponto de entrada para inovação, desde que o problema seja traduzido em critérios objetivos de seleção e validação, como fez o InovaHC ao estruturar o desafio de geolocalização indoor com Zapt Tech e Ciclix. Nos próximos anos, à medida que mais complexos hospitalares brasileiros adotarem esse tipo de curadoria de startups, a diferença competitiva deixará de estar na tecnologia em si e passará a estar na velocidade e no rigor do processo de seleção.

O InovaHC reduziu um problema estrutural de grande escala a um desafio testável com startups validadas. Empresas que enfrentam gargalos operacionais parecidos, sejam hospitais, indústrias ou grandes complexos corporativos, encontram no mesmo tipo de processo uma alternativa concreta a projetos internos lentos. Conheça o GenAI Lab e estruture desafios abertos com startups que já testaram soluções reais em ambientes complexos.