
1. O que é o InovaHC?
2. Como funciona o modelo de inovação aberta do InovaHC
3. O desafio real: orientar pacientes dentro de um complexo hospitalar gigante
4. Como o Distrito estruturou o desafio junto ao InovaHC
5. As startups finalistas e o que diferencia cada solução
6. O que o caso InovaHC ensina sobre inovação aberta em saúde
Todos os dias, cerca de 20 mil pessoas circulam pelos 600 mil m² do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), um dos maiores complexos hospitalares do mundo. Entre corredores, alas e prédios distintos erguidos desde 1944, encontrar o caminho certo até uma consulta ou exame virou um problema estrutural, não um detalhe de conforto. Foi esse problema concreto que levou o InovaHC, núcleo de inovação tecnológica do HCFMUSP, a buscar fora dos muros do hospital uma solução que as equipes internas de TI não conseguiam resolver sozinhas.
A resposta veio por meio de um desafio aberto para startups, estruturado em parceria com o Distrito. O resultado, conduzido dentro do programa de inovação aberta do InovaHC, evidencia algo que grande parte das empresas ainda erra na prática: inovação aberta funciona melhor quando parte de um problema operacional bem delimitado, não de um mandato genérico para "inovar".
A dificuldade não é exclusividade do HCFMUSP. Segundo o BCG (2024), 83% dos executivos classificam inovação como uma das três prioridades estratégicas da empresa, mas apenas 3% das organizações se consideram de fato prontas para entregar essas metas, o menor patamar da série histórica do estudo. O caso do InovaHC chama atenção justamente por escapar dessa estatística: transformou um problema de operação hospitalar, a orientação de pacientes dentro do complexo, em um processo estruturado de seleção, teste e validação de startups.
Trata-se do núcleo de inovação tecnológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, criado em 2015 para conectar startups, empresas e pesquisadores a desafios reais de um dos maiores complexos hospitalares do mundo. Sua atuação se apoia em quatro pilares: promoção de uma cultura interna de empreendedorismo, mapeamento de desafios prioritários, co-desenvolvimento e validação de tecnologias com o próprio hospital, e conexão entre os diferentes atores do setor de inovação em saúde.
Entre os programas estruturados do InovaHC está o In.pulse, iniciativa voltada a soluções que já têm alguma maturidade tecnológica e que podem ser testadas rapidamente dentro do hospital. Para Jean Singh, analista de inovação do InovaHC:
"Trazer soluções tecnológicas para resolver grandes desafios da saúde é o core do In.pulse, programa de inovação do InovaHC. Através da colaboração de empresas, startups e instituições, transformamos o setor de saúde e as nascentes que precisam de apoio no desenvolvimento de soluções. Essas soluções, testadas e desenvolvidas com o HCFMUSP, podem ser aplicadas tanto no sistema público quanto no privado."

Esse modelo segue uma lógica de funil: qualquer unidade do HCFMUSP pode levar um problema real de operação, atendimento ou gestão até o núcleo, que avalia sua viabilidade técnica e o potencial de impacto. Feita essa triagem, o desafio é aberto ao mercado por meio de programas como o programa de desafios abertos para startups do Distrito, que reúne empresas early-stage capazes de propor soluções específicas para o problema mapeado.
Esse desenho evita um erro comum em iniciativas de inovação aberta: abrir o processo para qualquer ideia, sem um problema nomeado para orientar a seleção. No caso do InovaHC, cada etapa (mapeamento, curadoria, pitch e prova de conceito) existe para reduzir o risco de investir tempo e recursos em soluções que não resolvem, de fato, a dor original.
O HCFMUSP emprega mais de 22 mil profissionais e recebe, somados pacientes, acompanhantes e equipes, um volume de pessoas comparável ao de um município brasileiro de porte médio. "O HCFMUSP se equipara a municípios brasileiros, em termos de contingente do público que o frequenta. Apenas em nossas equipes, temos mais de 22 mil colaboradores. Com o volume de pacientes, esse número sobe mais, o que nos impõe questões e desafios de smart cities", explica Marco Bego, diretor do InovaHC.
Em uma estrutura desse tamanho, muitas pessoas em quadros clínicos diversos encontram dificuldade para se localizar, se orientar e acessar ambientes internos e externos do hospital. O problema ganha proporção quando reflete em atrasos e faltas, que aumentam remarcações e afetam a organização das equipes de saúde.
Não é só um problema logístico. Ao dificultar o deslocamento do paciente dentro do complexo, cria-se também uma experiência de acesso mais frustrante justamente para quem já está em um momento vulnerável. Foi essa fricção operacional, recorrente e mensurável, que motivou o núcleo a buscar apoio externo em vez de tratar o problema apenas como uma questão interna de sinalização.
Para resolver o problema de orientação de pacientes, o InovaHC recorreu ao portfólio de soluções de inovação do Distrito. Ao todo, 23 startups se inscreveram no processo, 16 passaram por curadoria técnica, 4 apresentaram pitch para o time do núcleo e 2 avançaram para a fase de desenho de prova de conceito (POC).
Esse funil de seleção não é um detalhe burocrático. Segundo o Boston Consulting Group (BCG, 2024), abordagens estruturadas de corporate venturing, com etapas claras de triagem, teste e validação, chegam a uma taxa de sucesso de 66%, patamar bem acima do que se observa em iniciativas de inovação aberta conduzidas sem processo definido.
Para José Antônio Costa, Program Manager da Cisco envolvido no processo de seleção:
"A caracterização do problema é fundamental para identificar startups com soluções prontas ou customizáveis que tenham potencial para resolvê-lo. Mas isso só é possível com o envolvimento de quem, diariamente, vivencia as dificuldades do percurso de pacientes no complexo do HC, que são os colaboradores."

Selecionar apenas duas startups entre tantas soluções não foi tarefa simples. Com apoio do time do Distrito, o núcleo chegou a duas finalistas, ambas apoiadas em tecnologias emergentes de IoT para geolocalização indoor, mas com propostas de valor distintas.
A Zapt Tech é a primeira startup brasileira especializada em geolocalização indoor. A tecnologia usa sensores de IoT e sistemas de localização em tempo real para detectar o local exato de uma pessoa dentro de ambientes cobertos, o que permite traçar rotas dentro do complexo e identificar quais pontos concentram mais fluxo, e por isso exigem mais alocação de recursos físicos e humanos.
A Ciclix atua com rastreabilidade em tempo real voltada à área da saúde. Por meio de um sistema chamado Iris, a startup identifica onde pacientes e equipamentos se encontram, mapeando e otimizando processos diários de atendimento. O que diferencia a Ciclix da Zapt Tech é o foco: enquanto a Zapt Tech prioriza a experiência de navegação do paciente, a Ciclix mira a gestão operacional de equipamentos e recursos em tempo real, dois recortes complementares do mesmo problema.
Para Luciana Mattar, Head de Inovação do InovaHC:
"Pretendemos com esse projeto não somente resolver problemas do hospital, mas fomentar soluções inovadoras com alto potencial de impacto social e geração de renda. Também reforçamos a importância dos valores do HCFMUSP e do InovaHC, como referência e agente transformador do setor de saúde."
Esse caso contraria uma crença comum entre lideranças hospitalares: a de que inovação depende primeiro de orçamento e só depois de parcerias externas. Aqui a ordem foi invertida. O núcleo delimitou um problema operacional específico, a orientação de pacientes, definiu critérios claros de seleção e só então buscou tecnologia externa para validá-lo.
Essa lógica converge com o que mostra a Deloitte (2024): em levantamento com executivos de grandes sistemas de saúde nos Estados Unidos, a maioria espera que a adoção acelerada de ferramentas digitais impacte diretamente a estratégia de suas organizações nos próximos anos, ainda que boa parte dos hospitais continue priorizando o fortalecimento da tecnologia já existente em vez de adotar soluções inteiramente novas.
Esse episódio mostra que inovação aberta bem-sucedida não começa com uma lista de tecnologias emergentes, mas com um problema nomeado, medido e delimitado o suficiente para que startups consigam propor, testar e validar soluções em ciclos curtos.
Para gestores hospitalares e de saúde, a implicação prática é direta: qualquer área operacional, não só a assistencial, pode virar ponto de entrada para inovação, desde que o problema seja traduzido em critérios objetivos de seleção e validação, como fez o InovaHC ao estruturar o desafio de geolocalização indoor com Zapt Tech e Ciclix. Nos próximos anos, à medida que mais complexos hospitalares brasileiros adotarem esse tipo de curadoria de startups, a diferença competitiva deixará de estar na tecnologia em si e passará a estar na velocidade e no rigor do processo de seleção.
O InovaHC reduziu um problema estrutural de grande escala a um desafio testável com startups validadas. Empresas que enfrentam gargalos operacionais parecidos, sejam hospitais, indústrias ou grandes complexos corporativos, encontram no mesmo tipo de processo uma alternativa concreta a projetos internos lentos. Conheça o GenAI Lab e estruture desafios abertos com startups que já testaram soluções reais em ambientes complexos.