10 dicas para empreendedores e startups de primeira viagem que ainda não sabem por onde começar .

Rotineiramente, ouvimos dados sobre o crescimento do número de empresas e startups abertas no Brasil. Esse número vem aumentando ano após ano. Porém, um dado não muito divulgado, é o fato da maioria desses novos empreendimentos acabarem fechando, pouco tempo depois de abertos.

Como mostra a reportagem do G1, por 3 anos seguidos, o Brasil teve um saldo negativo de empresas, ou seja, mais negócios fecharam do que abriram. Há vários motivos que contribuem para isso, e com certeza a falta de preparo dos empreendedores é o principal deles.

Muitas pessoas, antes de abrirem seus negócios, se preparam e buscam conhecimentos sobre administração, empreendedorismo e como abrir suas respectivas startups. Contudo, a maioria do conteúdo atual possui um formato de “manual”. Como se fosse um passo a passo para o sucesso do novo empreendimento.

Pessoas que estudam esse tipo de conteúdo e leem livros, de fato têm resultados mais positivos. Mas, muita gente se esquece de olhar um passo antes. Poucos que querem empreender pensam, leem e se preparam para saber: “eu realmente consigo e sei o que preciso para empreender?”. É exatamente sobre isso que quero falar. Afinal, é um passo extremamente importante, senão o mais importante, na hora de abrir seu negócio, especialmente para uma startup, o foco deste artigo.

Apesar de focado para startups, essas dicas são relevantes para qualquer tipo de empreendimento, desde barracas de pipoca, até fintechs. Elas são importantes para todos por justamente falar do momento pré-empreendimento. Eu mesmo já abri uma empresa. Se tivesse lido ou me preparado dessa maneira, com certeza teria seguido caminhos diferentes. Possivelmente meu negócio estaria vivo até hoje.

Para outros casos, é nesse momento de preparação prévia que a pessoa entende que talvez não tenha o perfil, e que empreender não é o caminho para ela. Independente de qual seja sua situação, saber essas dicas, antes de abrir seu negócio, fará toda a diferença na sua jornada empreendedora.

Pensando no processo de “O que preciso saber antes de empreender”, separei 10 dicas, que resumem as informações mais importantes, especialmente para empreendedores de primeira viagem.

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1.      Motivação

Criar um empreendimento exige muito tempo e dedicação. O sucesso da sua startup está  diretamente relacionado à quantidade de esforço que você põe nela. Agora, imagine-se dedicando tempo, energia e dinheiro em algo que não lhe motiva. Por isso que motivação é a primeira dica da lista.

Empreenda por algo que realmente te deixe feliz, que você tenha orgulho e que lhe cativa a fazer da maneira mais bem-feita possível. A sua motivação é dinheiro?  Não há nenhum problema nisso, desde que você una essa vontade com algo que você goste, ou ao mínimo lhe interesse. Empreendedores com motivações fortes e com propósito, normalmente possuem resultados melhores. Se você está pensando em empreender apenas pelo retorno financeiro e pela ideia de “dinheiro fácil”, pode parar por aqui.

Estar motivado é fundamental para superar os desafios que um empreendimento impõe, como lidar com dias ruins, com pessoas difíceis e mais importante: estar disposto a se doar ao máximo, por algo que pode resultar em uma startup fechada.

2.      Perfil Empreendedor

Algumas pessoas têm motivações fortes, querem de fato fazer a diferença no mundo e criar algo novo. Contudo, isso não é suficiente, é necessário ter um perfil empreendedor. Por mais que se queira, nem todos possuem esse perfil, e isso não significa que aqueles que não têm são melhores ou piores, apenas não possuem características necessárias a um bom empreendedor.

A característica principal consiste em não ser avesso ao risco. Empreendedores, por definição, trabalham em ambientes de extrema incerteza, estão investindo tempo, conhecimento, energia e muitas vezes dinheiro, em suas startups, que não possuem nenhuma garantia estável de retorno. Se o risco for um problema, te deixar incômodo ou inseguro para tomar decisões, tome cuidado ao empreender.

Há muitos sites e testes que confirmam seu perfil empreendedor, e o que considero mais preciso é o General Enterprising Tendency, ou GET Test. Mas não se apegue muito no resultado do teste, essa etapa consiste no autoconhecimento, um reflexão de você consigo mesmo.

3.      Ter um Bom Time

A próxima etapa é escolher um bom time. Momento crucial para o seu empreendimento, porque além de ter que montar um time, você como empreendedor, estará escolhendo seus sócios, as pessoas com quem dividirá as alegrias e tristezas, momentos bons e ruins. Parece um casamento né? Na verdade é. Há um ditado empreendedor: “Namore antes de casar”, que se refere exatamente a isso.

Antes de escolher seus sócios e montar seu time, pense. Tome essa decisão com calma. Trabalhe com a pessoa antes, conheça ela em momentos estressantes, antes de dar qualquer tipo de participação societária para ela. Há modelos de contratação que permitem isso, chamados de Cliff e Vesting, nos quais você trabalha com a pessoa antes de torná-la membro da sociedade.

Seu critério de escolha deve ser principalmente qualidade. Montar o melhor time possível é indispensável para o sucesso da startup. O sucesso no empreendedorismo está atrelado com boa execução, e você precisa de um time que execute bem. Um time ruim, não consegue executar com eficiência uma boa ideia.

Diversidade e experiência fazem a diferença

Além disso, seu time tem que ser diverso. Não tenha ao seu redor pessoas iguais ou que pensam parecido com você. Isso empobrece as discussões e pontos de vista, e com certeza atrapalhará a sua startup em momentos de criatividade. Um time ideal é composto por Hustler, Hacker, Hypster e Hyper. Esses nomes representam funções a serem executadas na sua empresa. Você precisa das melhores pessoas que conhece nas áreas de vendas, tecnologia, produto e marketing digital.

Além desses perfis, certifique-se que a sua equipe possui ao menos uma pessoa experiente, que já viveu um empreendimento de sucesso, pois com certeza ela já passou por problemas que seu time irá passar. Ter alguém que saiba como lidar com isso, auxilia na tomada de decisão. Caso seu time seja jovem e não possua ninguém com boa experiência de mercado, não se preocupe, a maioria dos times são assim. Para buscar conselhos e experiência, vá atrás de mentores. Dê preferência a outros empreendedores, mais rodados, e que tenham sinergia com o seu negócio. Uma pessoa que conheça os atalhos e armadilhas do seu mercado de atuação.

Infográfico que explica as diferenças entre os termos: hustler, hacker, hipster e mentor.

Informações: 
Hipster: entende as necessidades do consumidor para criar, comunicar e definir um produto que tenha demanda e tenha poder de consumo.

Hacker: vai atrás de colocar em prática e ajuda a criar as soluções para o problema.

Hustler: é o responsável por fazer parcerias e cuidar da parte de vendas do produto.

Mentor: empreendedor ou especialista experiente que tem conhecimento de mercado para dar dicas, orientações e direcionamentos para sua empresa.

4.      Escolher e Estudar um Mercado

Escolher um mercado está dentro das dicas porque você precisa saber com o que está empreendendo. “O empreendedor precisa olhar o mercado, ver se existem outras empresas fazendo o mesmo, como elas atuam e se diferenciar” – Wlado Teixeira, investidor anjo e membro GVAngels. Há alguns mercados que são ruins, ou seja, pouco atrativos. Essa conclusão só acontece depois de um estudo para entender as barreiras de entrada , expectativas de retorno, variedade de produtos, tipo de competição e outros.

Busque dados históricos e atuais, entenda quais são as empresas líderes e quais inovações estão surgindo. Criar uma empresa que atuará em um mercado que você não conhece aumenta muito o risco envolvido no negócio, procure setores em que você se familiariza.

Outro ponto importante é: goste do mercado que está atuando. Caso você não tenha afinidade ou interesse por um setor, não empreenda nele! Isso está diretamente relacionado à sua motivação. Lembre-se, você se doará integralmente à sua empresa. Então, escolha algo que lhe atraia.

5.      Ter Contatos

Ter contatos é fundamental. Muitas oportunidades para sua startup surgirão de contatos, cafés e conversas que você terá com sua rede de conhecidos. Você não tem muitos contatos ou não possui um perfil muito extrovertido? Isso não é um problema, essa função é para o Hustler da sua empresa.

As possibilidades que os contatos podem abrir, são fundamentais para o crescimento da startup. Ter insiders no setor de atuação é indispensável. Saber quem procurar para pedir ajuda ou conselho no momento certo pode definir o sucesso ou fracasso do seu empreendimento.

Além disso, para montar seu time é importante bons contatos. Lembre-se, você está procurando a melhor pessoa daquela área, com certeza a maneira mais eficiente de encontrá-la é via indicação de alguém que você conhece.

6.      Defina seu Modelo de Negócio

Modelo de negócio é o termo técnico utilizado para dizer: como sua startup vai ganhar dinheiro. Com certeza essa é uma pergunta difícil e importante de se responder. Indispensável saber como a sua empresa vai se sustentar e se ela gerará mais receita do que gastos. Para isso, faça um modelo no excel e uma projeção simples para entender se sua startup possui um modelo sustentável.

Com isso, torna-se mais fácil visualizar a empresa e identificar os primeiros desafios a que serão enfrentados. Começar a empreender sem esse planejamento, pode resultar em perda de tempo com retrabalho, que poderia ter sido evitado com um planejamento prévio.

Ao mesmo tempo, não se apegue muito a esse modelo. É provável que sua startup pivote ao longo dos anos, ou seja, mude de rumo e possivelmente seu modelo de negócio mudará. Não tenha medo e arrisque.

7.      Não Ter Medo

O medo é um dos maiores desafios do empreendedor. Mesmo que você tenha um perfil totalmente voltado ao empreendedorismo, e goste de correr riscos, o medo é inato ao ser humano, e com certeza ele aparecerá para você. Medo aqui, pode ser traduzido também como incerteza, na hora de pivotar o seu negócio, lançar uma nova feature no aplicativo, divulgar um novo produto, aceitar ou não uma proposta. Não deixe o medo influenciar sua decisão. Lembre-se que dados e métricas são suas melhores ferramentas para lhe auxiliar na tomada de decisão.

Além disso, não tenha medo de contar a sua ideia. Uma ideia não vale nada, como dito na parte de “monte um bom time”, o que realmente importa é o seu poder de execução. Converse com as pessoas, explique sua ideia e veja o que elas trazem de feedback. Converse e conte para os outros sua ideia, essa é uma parte fundamental para o seu sucesso. Nenhuma ideia nasceu perfeita, e conversar com os outros sobre ela só vai trazer mais elementos para deixá-la melhor.

Muitas pessoas têm medo de ouvir que suas ideias são ruins e as guardam como um segredo de sete chaves. O comportamento deve ser justamente o oposto.   

8.      Validar

Validar a sua ideia e seu modelo de negócio é imprescindível. Esse é outro momento que dá medo. Agora, depois de pensar em tudo, definir seu modelo, provavelmente seu time, e ter gastado horas em cima da ideia, você vai colocá-la à prova.

Validar significa testar, confirmar se as suas hipóteses sobre o mercado, produto e o comportamento do cliente estavam certas ou erradas. O mais importante da validação é que ela aconteça o mais cedo possível. Para validar seu negócio você precisará construir um MVP e ter algumas métricas para auditar o resultado. Para quem não conhece os conceitos de validação, MVP, pivotar e outros, pesquise e entenda. São conceitos fundamentais para administração em geral, e poucos são os cursos de graduação que ensinam isso. O livro Startup Enxuta de Eric Reis resume bem a teoria por trás do empreendedorismo.

Validando a sua ideia rapidamente, você poderá trabalhar em cima dos feedbacks, melhorar o que está ruim, explorar o que foi bom e criar a sua startup com menos incertezas, diminuindo o risco. Muitas validações de empresas resultam na conclusão: não existe um negócio aqui. Nada melhor que isso, pois poupa seu tempo, evitando que trabalhe em algo que provavelmente não daria resultado. Muitas pessoas desenvolvem toda a empresa sem nenhuma validação, e acabam desenvolvendo um produto que ninguém quer comprar.

9.      Identificar a Dor do Cliente

A dor do cliente pode ser traduzida para: qual problema sua startup vai resolver? Todo empreendimento de sucesso e sustentável resolve a dor do seu cliente, ou seja, deixa a vida dele mais prática.

Sua empresa precisa entregar valor ao cliente, e com isso você tem que entender, qual dor você está resolvendo. Steve Blank é um dos mais renomados empreendedores e seu livro “Startup: Manual do Empreendedor” explica muito bem como identificar a dor do cliente e encontrar o problem market fit, como ele mesmo define.

10.  Jurídica

A parte legal da sua startup não pode faltar. Antes de abrir-la você precisa entender quais tributos irá pagar, como será registrado e fugir de problemas fiscais que podem levar a sua empresa à falência.

“É fundamental já ter seu modelo de negócio para que o seu Código Nacional de Atividade Econômica (CNAE) seja definido, e por consequência, a sua tributação. Startups normalmente pagam Impostos Sobre Serviço (ISS)” – Erik Nybo, Fundador da EDEVO e autor de “Direto para Startups” em conversa sobre o tema.

Além da questão tributária, a parte jurídica entra em cena no contrato social que deve ser feito da melhor maneira possível, já que é tão importante quanto a escolha dos seus sócios. Ele define a relação entre vocês. Com o seu contrato social pronto, você tem que se registrar na Junta Comercial, informando também o local que sua startup residirá. Há algumas especificações, como em caso de fintechs que são reguladas pelo Banco Central.

“Com o alvará de funcionamento, uma conta bancária para transações financeiras e todos as dicas dessa lista ticadas, você está pronto para abrir o seu novo negócio.”.

Conclusão:

De fato, são muitos pré-requisitos para se tornar um empreendedor. Este artigo não tem a intenção de tornar-se manual que deve ser seguido rigidamente, já que não existe um passo a passo para abrir sua empresa. Empreender, por definição, é uma atividade que vive imersa na incerteza que resulta em situações imprevisíveis. Sendo assim, o empreendedor, por diversas vezes, terá que dar o chamado “salto de fé”, definido por Eric Ries, como o ato tomar decisões baseadas em sua intuição. Então não espere que aplicar esses conceitos e dicas levará você ao sucesso  100% das vezes. Também não se desespere caso sua intuição, baseada em dados e fatos, apontar para outro caminho. É exatamente isso que torna o empreendedorismo tão interessante, diferentes caminhos levam ao mesmo lugar.

A sorte está com você?

Obviamente há outro fator envolvido que ainda não foi citado: sorte. Muitas empresas de sucesso são ditas como “sortudas”, mas, sorte é relativo. Pessoas e empresas bem preparadas estão prontas para aproveitar as oportunidades que surgem. Dessa forma, você deve saber e extrair o máximo delas, enquanto empresas despreparadas e sem estrutura muitas vezes deixam as oportunidades escapar “entre os dedos”.

Portanto, sorte, ao meu ver, é uma questão de preparo e competência. É importante que você tenha conhecimento em todos os tópicos acima, para que as suas chances de sucesso sejam maiores. Então prepare-se, estude e coloque a mão na massa! E boa sorte em sua jornada empreendedora daqui pra frente!

Este texto foi escrito por Gianluca Xande, Diretor de Empreendedorismo da Liga e Empreendedorismo FGV

Quero ser inovador, vou me atualizar!